Sábado, 01 de Janeiro de 2011

O principio de imitar Deus é conhecido na linguagem filosofica pelo termo em latim "imitatio Dei", e em termos halakhicos pela frase "Vehalakhta biderakhav" - Deverás andar por Seus caminhos. Este conceito explícito na Bíblia, é expandido pelos Chazal (sábios talmudicos), e recebe o tratamento mais pleno nos trabalhos do Rambam. A frase "Vehalakhta biderakhav" é retirada do versículo:

O Senhor levantar-te-á para Si por povo santo como te jurou, quando guardares os mandamentos do Eterno, teu Deus, e andares por Seus caminhos - Deuteronómio 28:9 ¹

Há vários problemas com a interpretação deste versículo como mandamento de emular Deus: 1º é expressado como expressão condicional, não um mandamento; 2º a frase "andar por Seus caminhos" está aberta a várias interpretações; e 3º parece-se como uma directriz geral e não um mandamento específico. O filho do Rambam, Rav Avraham, lida com estes problemas na sua responsa #63, impressa no fim de muitas edições do Mishnê Torah. De forma a não divagar irei deixar as suas respostas de parte, mas não posso deixar de considerar que a Bíblia comanda emulação de Deus numa forma mais inequívoca em outros pontos:

Sereis santos, pois Eu, o Eterno, vosso Deus, sou santo - Levítico 19:2

 

Porque o Eterno, vosso Deus (...) que ama o peregrino ² dando-lhe pão e roupa; E amareis o peregrino, porque fostes peregrinos na terra do Egipto - Deuteronómio 10:17-19

 

(...) Eu sou o Eterno que pratica misericórdia, rectidão e justiça na terra; porque nisto Me deleito - Jeremias 9:22

Os Sábios desenvolveram imitatio Dei num princípio mais geral. Por vezes, interpretam-no como um mandato para emular certas características atribuídas a Deus:

Assim como Ele é chamado 'misericordioso', assim devereis ser misericordiosos, assim como Ele é chamado 'gracioso', assim devereis ser graciosos (...) assim como Ele é chamado 'justo', assim devereis ser justos (...) assim como Ele é chamado 'pio', assim devereis ser pios. - Sifri, Devarim 11:22 & Shabat 133b

Outras vezes os Chazal interpretam imitatio Dei em termos de acções, e não características de carácter:

Rabino Chama, filho do Rabino Chanina disse: O que significa 'Após o Eterno, vosso Deus, andareis'? (Dt. 13:5) Pode uma pessoa de facto andar seguindo a Presença Divina? Não está escrito 'Porque o Eterno, teu Deus, é um fogo consumidor'? (Dt. 4:24) Em vez disso, caminha após Suas qualidades. 'Assim como Ele veste o desnudo, visita o enfermo, conforta o enlutado e enterra o falecido, assim deverás fazer' (Sotah 14a)

O Rambam foi o primeiro a formular "Vehalakhta biderakhav" enquanto mandamento bíblico específico para desenvolver uma personalidade virtuosa. De facto, o Rambam baseia exclusivamente o seu sistema de éticas neste princípio. De acordo com a sua leitura, o "caminho" que somos supostos caminhar é o caminho do meio.

 

O Rabino Joseph B. Soloveitchik (o Rav) é reportado como tendo acrescentado uma ligeira e interessante distorção da fórmula do Rambam.  É o caminho do meio uma tépida, mediana e forma medíocre de "parve"?³ Se devemos desenhar uma analogia para Deus, então o que emerge é um meio dinâmico. Assim como Deus apresenta uma dialéctica constante entre imanência e transcendência, ou entre misericórdia e justiça estrita, assim deve o homem caminhar através de um caminho mediano dialéctico, oscilando entre dois pólos e incorporando-os. Apesar de me parecer que isto se refere mais como uso alegórico criativo (midrash) do Rambam, do que uma exposição literal desta posição, dirige-nos para motivos importantes da filosofia do Rav.

 

 

Notas:

 

¹ Formulações semelhantes em Deuteronómio 8:6, 10:12, 11:22. 13:5, 26:17 e 30:16

 

² Peregrino - gentio ou estrangeiro (i.e. não-Judeu)

 

³ Parve - nas leis alimentares (cashrut) significa "neutro"; neste contexto "neutralidade"



Publicado por Marco Moreira às 22:21
Sábado, 25 de Dezembro de 2010

A aproximação do estudo do Tanakh (Bíblia Hebraica) dá-se com uma dupla finalidade. A primeira é a de compreender o significado literal da história ou da lei judaica. As questões que podemos colocar são: Porque Deus testou Abrahão, ordenando-lhe que sacrificasse o seu único filho? Como eram os sacrifícios oferecidos no Templo, e porque razão foram instituídos? Qual foi o pecado de Moisés, que fez com que Deus o impedisse da longa ambição de entrar na Terra Prometida? Todos estes exemplos relacionam-se com a forma como entendemos a palavra de Deus, conforme está escrita no Tanakh. Isto pode ser traduzido como aprender p'shat, o significado literal do texto.

 

A segunda, igualmente importante, é o objectivo da exegese bíblica de perguntar, não a questão objectiva do significado do versículo, mas sim a questão subjectiva do que uma frase, ou ideia, significam para mim. Noutras palavras, enquanto o primeiro objectivo é o de compreender a palavra de Deus quando se relaciona com Abrahão, Moisés, David e Salomão, o nível secundário é o de perguntar como a palavra de Deus e as acções dos nossos ancestrais se relacionam connosco - como afectam o nosso dia-a-dia. Podemos classificar este tipo de aprendizagem como d'rash.

 

Por exemplo, enquanto p'shat se relaciona com a natureza do pecado de Moisés, d'rash tenta passar-nos lições das capacidades deste homem - crescendo até se transformar no maior dos profetas, e as suas limitações - a fraqueza humana que até Moisés tinha.

 

Tehilim (salmos) representa talvez o paradigma desta aproximação de duas pontas em direcção à exegese. Primeiro, preocupamo-nos com a compreensão das palavras do salmista, ideias e motivação para a escrita do poema. Contudo, ainda mais importante, e talvez o objectivo traçado pelo próprio salmista, é de transmitir os sentimentos do Homem em relação ao Criador, retratando-os através de uma série de emoções.

 

Não é surpresa que muitos dos cânticos de David foram integrados na nossa liturgia: o que é a prece senão prostação das nossas emoções a Deus, e quem melhor que o Rei David para expressar estes sentimentos? Nós, pelo meio que David introduziu, tentamos destrancar nossos sentimentos mais íntimos, expressando-os em comunhão com Deus.



Publicado por Marco Moreira às 19:37
 
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