Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011



Publicado por Marco Moreira às 10:33
Sábado, 01 de Janeiro de 2011

O principio de imitar Deus é conhecido na linguagem filosofica pelo termo em latim "imitatio Dei", e em termos halakhicos pela frase "Vehalakhta biderakhav" - Deverás andar por Seus caminhos. Este conceito explícito na Bíblia, é expandido pelos Chazal (sábios talmudicos), e recebe o tratamento mais pleno nos trabalhos do Rambam. A frase "Vehalakhta biderakhav" é retirada do versículo:

O Senhor levantar-te-á para Si por povo santo como te jurou, quando guardares os mandamentos do Eterno, teu Deus, e andares por Seus caminhos - Deuteronómio 28:9 ¹

Há vários problemas com a interpretação deste versículo como mandamento de emular Deus: 1º é expressado como expressão condicional, não um mandamento; 2º a frase "andar por Seus caminhos" está aberta a várias interpretações; e 3º parece-se como uma directriz geral e não um mandamento específico. O filho do Rambam, Rav Avraham, lida com estes problemas na sua responsa #63, impressa no fim de muitas edições do Mishnê Torah. De forma a não divagar irei deixar as suas respostas de parte, mas não posso deixar de considerar que a Bíblia comanda emulação de Deus numa forma mais inequívoca em outros pontos:

Sereis santos, pois Eu, o Eterno, vosso Deus, sou santo - Levítico 19:2

 

Porque o Eterno, vosso Deus (...) que ama o peregrino ² dando-lhe pão e roupa; E amareis o peregrino, porque fostes peregrinos na terra do Egipto - Deuteronómio 10:17-19

 

(...) Eu sou o Eterno que pratica misericórdia, rectidão e justiça na terra; porque nisto Me deleito - Jeremias 9:22

Os Sábios desenvolveram imitatio Dei num princípio mais geral. Por vezes, interpretam-no como um mandato para emular certas características atribuídas a Deus:

Assim como Ele é chamado 'misericordioso', assim devereis ser misericordiosos, assim como Ele é chamado 'gracioso', assim devereis ser graciosos (...) assim como Ele é chamado 'justo', assim devereis ser justos (...) assim como Ele é chamado 'pio', assim devereis ser pios. - Sifri, Devarim 11:22 & Shabat 133b

Outras vezes os Chazal interpretam imitatio Dei em termos de acções, e não características de carácter:

Rabino Chama, filho do Rabino Chanina disse: O que significa 'Após o Eterno, vosso Deus, andareis'? (Dt. 13:5) Pode uma pessoa de facto andar seguindo a Presença Divina? Não está escrito 'Porque o Eterno, teu Deus, é um fogo consumidor'? (Dt. 4:24) Em vez disso, caminha após Suas qualidades. 'Assim como Ele veste o desnudo, visita o enfermo, conforta o enlutado e enterra o falecido, assim deverás fazer' (Sotah 14a)

O Rambam foi o primeiro a formular "Vehalakhta biderakhav" enquanto mandamento bíblico específico para desenvolver uma personalidade virtuosa. De facto, o Rambam baseia exclusivamente o seu sistema de éticas neste princípio. De acordo com a sua leitura, o "caminho" que somos supostos caminhar é o caminho do meio.

 

O Rabino Joseph B. Soloveitchik (o Rav) é reportado como tendo acrescentado uma ligeira e interessante distorção da fórmula do Rambam.  É o caminho do meio uma tépida, mediana e forma medíocre de "parve"?³ Se devemos desenhar uma analogia para Deus, então o que emerge é um meio dinâmico. Assim como Deus apresenta uma dialéctica constante entre imanência e transcendência, ou entre misericórdia e justiça estrita, assim deve o homem caminhar através de um caminho mediano dialéctico, oscilando entre dois pólos e incorporando-os. Apesar de me parecer que isto se refere mais como uso alegórico criativo (midrash) do Rambam, do que uma exposição literal desta posição, dirige-nos para motivos importantes da filosofia do Rav.

 

 

Notas:

 

¹ Formulações semelhantes em Deuteronómio 8:6, 10:12, 11:22. 13:5, 26:17 e 30:16

 

² Peregrino - gentio ou estrangeiro (i.e. não-Judeu)

 

³ Parve - nas leis alimentares (cashrut) significa "neutro"; neste contexto "neutralidade"



Publicado por Marco Moreira às 22:21
Domingo, 26 de Dezembro de 2010

A tradição e literatura do Pentateuco direcionou sempre as necessidades e dilemas do individuo de uma forma directa. Contudo, o Judeu moderno encontra-se frequentemente privado, quase por definição, ao acesso deste aspecto vital da Mesorah. – a transmissão da tradição religiosa. Este sentimento resulta de uma lacuna reconhecida que vai bocejando entre a nossas fontes e as mentalidades e perspectivas contemporâneas, que são parte da “maquilhagem” emocional do Judeu observante da nossa geração. São encontrados problemas em relação aos conceitos éticos centrais do judaísmo que são ignorados na nossa cultura, e também relativamente a abordagens de vida e padrões instintivos de pensamento.

 

O resultado é que o Judeu observante dos nossos dias sente-se confortável ao estudar a Lei e Filosofia Judaica, mas confuso ou frustrado pelas demandas da Literatura Ética Judaica. Assuntos como a culpa, humildade, compromisso, que as nossas fontes têm por adquirido, são abertamente questionadas pelo grosso da sociedade. Se estes conceitos devem ser relevantes para o homem moderno, este precisa encontrar o caminho de volta a eles, sem negar a sua identidade enquanto homem moderno. Hoje, este empreendimento torna-se deveras considerável do ponto de vista intelectual e emocional.

 

Notas:

 

Mussar é o termo usado para aprendizagem da Literatura Ética Judaica que descreve, numa maneira metódica, as virtudes, os vícios e o caminho em direcção ao aperfeiçoamento humano.



Publicado por Marco Moreira às 21:45
 
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